sábado, dezembro 27, 2025

Natal em Brasília de Minas

Natal chega manso em Brasília de Minas,
Terra seca, céu aberto, fé antiga.
O sino bate cedo, chamando o povo,
Mais que festa, é lembrança viva.

Luz simples nas janelas, presépio armado,
Sem luxo, sem excesso, só respeito.
O Menino nasce pobre, como sempre,
Para lembrar que grandeza mora no jeito.

A praça se enche de passos conhecidos,
Cumprimento firme, olho no olho, sem pressa.
Aqui Natal não é vitrine nem promessa vazia,
É mesa dividida, é conversa sincera.
Quando a noite cai na roça silenciosa,

A estrela risca o céu escuro e seguro.
É a mesma que guiou os Reis do Oriente,
E ainda aponta caminho ao sertanejo duro.

Então ecoa a Folia cortando estrada e vereda,
Sanfona chorada, caixa marcando o compasso.
Bandeira erguida com fé e promessa,
O sagrado entrando em cada espaço.

De porta em porta, o povo abre a casa,
Oferece o que tem, sem ostentação.
Verso simples, canto antigo e verdadeiro,
Porque fé não se mede, se vive no coração.

Assim fazia Zezinho de Fila,
Homem reto, palavra dada e cumprida.
Guiava os foliões com devoção antiga,
Transformando canto em lição de vida.

Na sala, o presépio; na cozinha, partilha.
Oração curta, direta, sem enfeite.
Pedido simples: saúde, paz e trabalho,
E coragem pra enfrentar o ano seguinte.

Natal em Brasília de Minas é assim:
Chão batido, memória, tradição.
É Folia de Reis, família reunida,
Fé antiga sustentando o coração do sertão.

segunda-feira, agosto 18, 2025

CAMPO AZUL, MEU PORTO E MINHA RAIZ

                                                                                                                             Autor: JASAF

JOSE ANTONIO SOARES ALVES FILHO

Volto, Campo Azul, porque a cruz me chama,
erguida firme na praça, guardiã da fé e da história,
marco sagrado onde mãos de esperança
fincaram no solo o início da memória.

Entro pela capelinha branca de portas azuis,
onde bancos de madeira guardam gerações,
e no altar, flores simples recebem olhares
que se misturam ao incenso e às ladainhas,
num silêncio que também é oração.

Chego no calor das festas da roça,
quando São Sebastião e São João
vestem de cores as ruas e os quintais.
Ecoa o sino, bate zabumba, corre aboio,
e o povo inteiro celebra entre novenas,
fogueiras, procissões e vaquejadas,
onde a lida é também arte e tradição.

Caminho entre chapadões e morros,
o cerrado se abre em cores e perfumes,
pequi dourando paisagens, mangaba lembrando infância,
e a cachoeira, bênção de água clara,
refresca corpo e alma cansados.

Reencontro amigos à sombra das mangueiras,
ouço causos repetidos, tomo pinga na calçada,
proseio besteiras, canto modas antigas,
e sinto que o coração ainda dança
na simplicidade de cada abraço.

Campo Azul, és mais que chão: és memória viva.
És poeira da estrada, rocha azul que nomeaste a terra,
és cheiro de comida no fogão à lenha,
és sanfona que toca distante nas noites de festa.

Por isso volto, sempre volto,
porque aqui repousa minha alma,
aqui minha raiz se firma,
entre a cruz da fundação e o sino da matriz.

Campo Azul, pequena e imensa no meu peito,
és meu ponto de partida,
és também o meu porto feliz.

quarta-feira, agosto 13, 2025

VIVER É DIFERENTE DE ESTAR VIVO

 

                                                             Autor: JASAF

JOSE ANTONIO SOARES ALVES FILHO 


Vivo porque a estrada me chama,
porque o vento da chapada e do cerrado sopra meu nome.
Vivo pra ver a lua grande nascer
atrás do morro, mansinha, sem fome,
pra sentir o cheiro do café fresco
e ouvir o galo antes da aurora.

 

Vivo pra sentar na sombra do jatobá,
lá no Riacho do Meio, no banco de madeira,
prosear com o compadre sobre tempos antigos,
falar de caça, de roça, de chuva certeira,
rir das histórias de onça e capoeira,
e deixar o tempo correr sem pressa,
como corre o rio na cheia.

 

Vivo pra comer feijão tropeiro com torresmo,
arroz com pequi e carne de sol bem passada,
beber água fria de pote de barro,
mastigar um pedaço de rapadura
e ouvir viola do primo Magno Bento com ponteio raro,
sabendo que ali meu coração encontra
o compasso certo do seu disparo.

 

Vivo pra rever a molecada correndo descalça
pelas ruas empoeiradas de Brasília de Minas,
o vô na rede, a vó na costura,
o cheiro de bolo de fubá no forno,
a vida simples, mansa e segura,
que o mundo lá de fora não entende
e nem quer aprender essa doçura.

 

Vivo pra chorar no enterro do velho amigo,
pra rir alto na festa de casamento,
pra dançar forró no salão da comunidade,
deixar que a saudade vire alimento
e que cada abraço forte me conte
o valor do tempo e do momento.

 

Porque viver é diferente de estar vivo,
e não é preciso ser rico nem ter dinheiro para viver.
No Riacho do Meio e em Brasília de Minas aprendi essa lição verdadeira:
que não basta o corpo ter fôlego e passo,
é preciso ter alma inteira,
ter raiz, ter canto, ter abraço,
e se encher da paz da terra sertaneira.

Vivo pra ouvir o canto da seriema,
pra ver o entardecer vermelho no horizonte,
pra molhar o rosto na bica fria,
e beber da paz que o sertão me apronte.

 

segunda-feira, agosto 11, 2025

Brasilinha, por que voltar??

 

BRASILINHA, POR QUE VOLTAR?

Autor: Jasaf

         JOSE ANTONIO SOARES ALVES FILHO

Volto porque a saudade bateu e me chamou,
porque o peito pediu caminho.
Volto pra ver o velho pai e a doce mamãe,
pra abraçar a mãe no cantinho,
rezar no altar, renovar meu ninho
e reacender a chama.

Volto no São João da roça, pra dançar,
pra prosear com amigos na calçada,
tomar uma pinga com meu irmão,
tocar viola e cantar uma moda animada,
e assim sentir o pulsar do meu sertão.

Volto pra comer carne de sol e frango caipira,
com cheiro verde, feito na panela de barro;
comer arroz com pequi
e depois, na varanda antiga, escutar causos,
soltar meu cigarro, sabendo
que meu lugar é aqui.

Volto pra rever parentes e amigos,
pra rir dos novos e sorrir dos antigos,
pra caminhar nos pastos batidos,
revisitar a casa dos meus avós
e os cantos queridos.

Volto pra mostrar a cidade a quem quer conhecer,
apresentar ao primo, ao tio, à filha
a cidade que é meu canto de verdade,
do meu peito feito saudade,
mostrar que aqui meu coração quer viver
e minha alma descansar.

Volto pra ouvir as mesmas piadas e a mesma história,
e rir como se fosse a primeira vez,
ou rir como se fosse a última,
guardando tudo na memória de uma vida inteira.

Volto pra curar dor escondida,
pra enterrar o amigo, abraçar a ferida,
pra batizar quem chega à vida
e chorar por quem partiu.

Volto no Natal da esperança,
no carnaval da Bramoc e jacarezin, no batuque da dança,
no silêncio do sétimo dia,
na alegria da nova criança.
Volto pra celebrar meu lugar e meu chão,
pra chorar, rir, viver e cantar refrão,
pra sentir o cheiro da terra molhada
e da poeira do sertão.

Brasilinha, me aguarde na beira.
Dessa vez volto sem bandeira;
volto por mim, volto por nós, pela história.
Volto por saudade pura e verdadeira,
voltar pra celebrar na dor e na glória,
Brasilinha é meu lar, minha vitória.

 

 

Dedicatória

Inspirado pelo eco suave de um amigo poeta, Dr. Antônio Fabricio Gonçalves, que um dia escreveu: “Brasilinha, ir pra que?”, deixei que as palavras corressem soltas pelo peito. E assim, guiado por saudade e lembranças (de quando morava em São Paulo e sonhava com minha cidade) encontrei a resposta nas ruas, nos cheiros e nos abraços que me esperavam.

Nasceu, então, “Brasilinha, por que voltar?”, não como réplica, mas como abraço, como continuação de um diálogo que só o coração sabe manter.

 


terça-feira, abril 15, 2025

A Prova Irrefutável de Residência

 


Era uma tarde abafada em Coração de Jesus, dessas em que até o ventilador do fórum gira devagar de preguiça. Dr. JASAF ajeitava uns autos sobre a mesa quando entra no escritório um cliente conhecido, o famoso Zé Baldino, caboclo simples, calado, mas de uma criatividade jurídica digna de nota.

Doutor, fui intimado pra provar que moro onde moro mesmo — disse ele, suando mais que tampa de chaleira —. O senhor pediu pra eu trazer o comprovante... tá aqui.

E entregou com solenidade um envelope pardo, daqueles que parecem mais esconder segredo do que conter papel.

Dr. JASAF abriu, esperando uma conta de luz, um carnê da loja "Móveis São Geraldo", talvez até um IPTU atrasado. Mas o que encontrou foi algo inédito, digno de virar jurisprudência em todos os rincões do Norte de Minas: uma foto 10x15, revelada em laboratório, onde Zé Baldino aparecia em pé em frente à sua casa, com o dedo esticado apontando para a placa com o número da residência.

Na imagem, via-se nitidamente a fachada da casa (de barro batido), uma galinha ciscando perto da porta, e Zé sério, parecendo até candidato pedindo voto, com o dedo em riste para a tabuleta onde, à mão, se lia: "Rua do Sossego, nº 35".

Aqui, ó, doutor! — explicou Zé com orgulho. — Eu mesmo pedi pro menino da venda tirar essa retrato. Tava sol, num deu pra eu sorrir, mas dá pra vê que sou eu mesmo. A casa é minha. E esse dedo aqui é pra mostrar que eu num tô mentindo!

Dr. JASAF respirou fundo, ajeitou os óculos no nariz, e não se conteve: desatou a rir como há tempos não ria. Gargalhada daquelas que fazem até o crucifixo da parede balançar.

Zé do céu, isso aqui não é exatamente o que o juiz pediu, mas eu vou protocolar isso só pra ver a cara do escrivão!

E assim foi feito. No despacho, Dr. JASAF escreveu:

“Junta-se aos autos fotografia atual do requerente em frente à residência, apontando com o dedo indicador o número do imóvel. Prova visual de inegável valor simbólico e probatório, nos moldes do princípio da razoabilidade sertaneja.”

Resultado? O juiz, Dr Marco Antonio, homem que é de origem “da roça” e conhece a simplicidade do sertanejo, deferiu com uma observação:

“Em que pese a ausência de documento oficial, a criatividade e boa-fé do jurisdicionado suplantam a formalidade. Considero comprovado o endereço.”

E dizem que, desde esse dia, o cartório passou a aceitar “foto com dedo indicador” como início de prova documental.


segunda-feira, abril 14, 2025

Honorario À mão armada.

 


Lá pelos idos de 2001, quando São Paulo ainda era mais cinzenta do que é hoje, o jovem e já combativo Dr. JASAF palmilhava os fóruns da capital com seu terno surrado, a pasta recheada de petições e o espírito cheio de justiça.

Num desses dias, após uma audiência criminal acalorada — daquelas em que o juiz torce o nariz, o promotor range os dentes e o réu só falta chorar —, foi proferida a sentença: absolvição. O meliante, figura conhecida nos corredores do sistema, foi posto em liberdade.

Na saída, ainda diante do portão de ferro do Fórum, Dr. JASAF virou-se para o cliente, ergueu o queixo com altivez e disse:

“Acho que a minha defesa foi magnífica! Agora, como homem livre, passe amanhã pelo meu escritório para acertarmos as contas.”

O sujeito, com a cara mais lisa que mármore de cemitério, respondeu:

“Doutor, neste momento estou sem um centavo furado. Mas juro-lhe, o próximo assalto será para lhe pagar.”

Dr. JASAF franziu o cenho, ajeitou o paletó e disparou:

“Negativo. Sou advogado, não cúmplice. Esse serviço entra pra conta do pro bono.”

Deu-lhe as costas e seguiu, com a consciência limpa e os princípios em dia.


Moral da história:
Advogado de verdade defende a legalidade — não financia o crime. Honra não se negocia, nem se parcela. E quem vende a ética por moedas, compra a própria ruína com recibo em cartório.

 

O Futuro da Justiça e o Avanço Tecnológico: Os Fóruns Vazios e a Nova Era do E-Processo

 

O Futuro da Justiça e o Avanço Tecnológico: Os Fóruns Vazios e a Nova Era do E-Processo


Autor: JASAF - Advogado, especialista em Direito Cível, Previdenciário, Trabalhista e Criminal


 

                              Estou observando que o cenário atual da Justiça brasileira, especialmente nas comarcas do interior, revela uma transformação silenciosa, porém profunda, da estrutura do Poder Judiciário.

                               Digo isso porque atuando nas comarcas de Brasília de Minas, Coração de Jesus e São Romão, percebi que os fóruns — que até pouco tempo atrás, era o centro pulsante  da atividade jurídica, com movimentação constante de advogados, partes, serventuários e magistrados — hoje se apresentam, em muitas localidades, como espaços quase desérticos, “jogados às moscas”, como se diz no linguajar popular.

                     O lugar que era mais movimentado, eram as salas da OAB, onde frequentemente e diariamente era palco de conversas, debates, estreitamento de amizade entre advogados.

                    Foi-se o tempo em que o Fórum era o coração da cidade. Advogados circulando de pasta na mão, oficiais de justiça cruzando os corredores apressados, juízes encerrando audiências com a gravidade de quem carrega a balança da República nos ombros.

                       Hoje?

                       Um eco nos corredores. Cadeiras vazias. Café esfriando na copa do cartório. E uma tela azul brilhando solitária numa sala de audiência virtual.

                        A Justiça mudou. E mudou rápido.

                        A pandemia foi o marco da virtualização

                     Se antes da crise sanitária global já se vislumbrava a transição do processo físico para o eletrônico, a pandemia precipitou uma transformação que, em tempos normais, levaria pelo menos uma década para se consolidar. O que os estudiosos do Direito e os gestores do Judiciário planejavam para os próximos 10 a 15 anos, foi implementado em poucos meses, sob pena de colapso total do sistema.

                O “balcão do fórum”, figura clássica do contato humano com a Justiça, praticamente desapareceu. No lugar, instalou-se o “balcão virtual”, institucionalizado em muitos tribunais, onde despachos, petições e atendimentos são realizados por videoconferência, e-mails ou plataformas integradas.

                     Pois Bem!

           A mudança não por acaso, tampouco fruto de negligência: trata-se de uma consequência direta do avanço tecnológico, a chamada “virtualização” que hoje atinge, de forma irreversível, todos os ramos da vida social — inclusive a Justiça.


Do Processo Físico ao Processo Eletrônico: Uma Revolução Silencios

            A implantação do processo eletrônico (PJe) foi o marco inicial dessa revolução.

              Facilitou o peticionamento remoto, já quase não exista petições físicas, ou seja reduziu significativamente a papelada, acelerou o trâmite dos autos e desonerou os fóruns de sua função burocrática tradicional.

                              Com o avanço do processo eletrônico, sistemas como PJe, Projudi e e-SAJ dominaram o cenário jurídico. E com eles veio a desmaterialização dos atos jurídicos.

                               O balcão físico, que antes era lotado, e as vezas causando empurra empurra, graças a Deus, não existe mais, uma vez que perdeu sua centralidade.

                               Nós, os profissionais do direito, atuamos de qualquer lugar, pode ser no escritório, no campo ou até mesmo da zona rural, com acesso integral aos autos, podendo peticionar, interpor recursos, participar de audiências virtuais e até despachar com o juiz por videoconferência.

                               Confesso que a primeira audiência virtual que realizei, em um processo de alimentos da comarca de Coração de Jesus, fiquei boquiaberto e pensei, “que maravilha”, isso era inimaginável quando meu velho pai, Zezinho de Fila, atuava.

 

                   Este cenário revela um novo tipo de advocacia — mais dinâmica, desmaterializada e interconectada — e exige também uma nova concepção de estrutura judiciária.

                             Estamos no século 21, apenas o início de tudo, estamos iniciando a era da Justiça automática, e o risco é criar um sistema tecnicamente perfeito, mas emocionalmente vazio.

                         O que se perde quando a Justiça vira um clique? Perde-se o tato. Perde-se a sensibilidade. Perde-se a liturgia. O Direito, afinal, não é um algoritmo — é uma construção social feita por pessoas, com suas contradições, dores, paixões e esperanças. E isso não se codifica.

 

O Horizonte do E-Processo: A Próxima Etapa

                               O processo eletrônico, tal como conhecemos, está prestes a dar um novo salto: a transição para o chamado e-processo, uma evolução natural que integrará inteligência artificial, automação de atos processuais, julgamentos por algoritmos supervisados, gerenciamento de acervos com uso de big data e até atendimento automatizado por meio de assistentes jurídicos virtuais.

                    Essa rápida transição inaugurou uma nova etapa do processo digital: caminhamos agora para o e-processo, um novo paradigma em que a automação de atos, o uso de inteligência artificial, algoritmos jurídicos e big data tornarão o procedimento judicial ainda mais fluido, célere e — inevitavelmente — mais distante das estruturas físicas tradicionais.

                           Com esse novo modelo, a presença humana em diversas fases do processo será ainda mais reduzida. Audiências poderão ocorrer em metaversos institucionais, decisões interlocutórias serão proferidas automaticamente com base em precedentes e parâmetros estabelecidos por Cortes Superiores, e o próprio peticionamento será guiado por sistemas inteligentes que sugerem fundamentações, peças e estratégias.

                         O Relatório Justiça em Números 2022, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), comprova esse avanço: 97,2% dos processos que ingressaram no Judiciário brasileiro foram eletrônicos. Tribunais de quase todos os Estados já superaram a marca de 95% de digitalização. Programas como o Justiça 4.0, também do CNJ, promovem o uso de tecnologia, automação e dados para aproximar a Justiça da sociedade, com módulos de inteligência artificial para triagem processual, previsão de sentenças e até conciliações online assistidas.

 

Vale a pena dar uma olhada:

 

https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2022/08/apresentacao-relatorio-justica-em-numeros-dra-ana-lucia-e-gabriela-soares.pdf

https://www.cnj.jus.br/tecnologia-da-informacao-e-comunicacao/justica-4-0/

 

A Obsolescência da Estrutura Física

 

 

                              Diante dessa realidade, penso que a manutenção de estruturas físicas extensas e onerosas, como fóruns regionais em pequenos municípios, torna-se cada vez mais questionável.

 

                              Veja que aqui em Brasilia de Minas, estava previsto a construção de um prédio para abrigar o novo Fórum, mas acho que após essa nova realidade, a construção de tal prédio se torna desnecessária.

 

                                  A manutenção de prédios públicos onerosos e pouco frequentados, especialmente nas comarcas de menor movimento, se torna cada vez mais difícil de justificar. Até mesmo porque o Estado, pressionado por sua própria limitação orçamentária e pela necessidade de racionalizar gastos, deverá reconsiderar o destino desses imóveis públicos.

 

                              Não seria surpreendente, portanto, se em breve o Poder Judiciário iniciasse tratativas com o Executivo ou mesmo com a iniciativa privada para a devolução, cessão ou alienação de imóveis subutilizados.

 

                              O fórum, enquanto prédio, tornou-se simbólico, ficará agora, somente na lembrança dos advogadoa mais antigos, há vista que funcionalmente dispensável.

 

O "julgamento" agora está na nuvem.

 

O Futuro da Advocacia e o Desafio da Presença Humana

 

                              Para a advocacia tradicional, assim como eu formado em 1999 e que acompanhei de perto toda essa transformação, este é um momento decisivo: adaptar-se ou desaparecer.

 

                              O profissional do Direito deve tornar-se também um gestor de tecnologia, um operador de sistemas jurídicos automatizados e um intérprete de dados.

 

                              A humanização da Justiça, nesse contexto, não será mais função do balcão do fórum, mas da sensibilidade que o advogado imprimirá ao utilizar ferramentas digitais sem perder de vista a essência do Direito — o ser humano, pois a sensibilidade, a presença e o tato humano, que sempre foram atributos insubstituíveis do profissional, agora devem conviver com a linguagem dos sistemas, a lógica dos dados e a frieza dos algoritmos

 

                              O que está em jogo não é apenas o fechamento de prédios, demissão funcionários ou extinção de cargos, mas a redefinição do papel do Estado-Juiz.

 

                              Se, por um lado, o Judiciário torna-se mais ágil e acessível virtualmente, por outro, corre-se o risco de sua despersonalização e da cristalização de uma justiça “fria”, algorítmica e distante.

.                             Aqueles que resistirem a essa evolução correm o risco de se tornarem obsoletos junto com os velhos arquivos empoeirados dos fóruns. Mas os que se adaptarem — e mantiverem viva a alma da advocacia — serão os faróis de humanidade nesse mar digital.

 

 

 

Uma Justiça Itinerante, Inteligente e Descentralizada?

 

 

                              O que poderá acontecer é que no lugar dos fóruns atuais seja implantado um modelo híbrido, com núcleos físicos regionais altamente equipados, funcionando como hubs de atendimento presencial para casos excepcionais, enquanto o restante do serviço judiciário opera em nuvem, ou seja os novos fóruns passaram a ser uma pequena sala com número reduzido de funcionários.

 

                              As sustentações orais, júris, perícias complexas. Atos antes impensáveis à distância, como audiências e conciliações, hoje se realizam com naturalidade em salas virtuais. Amanhã, podem ocorrer em ambientes de realidade aumentada ou metaverso.

 

                              Vamos imaginar um sistema em que o processo corre integralmente por blockchain, com validade inquestionável dos atos, acessado por qualquer das partes em tempo real, sem risco de extravio, morosidade ou perda de prazo.

 

                              A Justiça poderá se tornar itinerante novamente — mas não mais com o juiz a cavalo, como na época do Saudoso Dr. Cassiano de Oliveira, — e sim por meio de drones, satélites e conexões em alta velocidade que levarão a jurisdição até a comunidade mais remota.

                              O Judiciário não será menos humano — mas será diferente. E os fóruns do interior, vazios como estão hoje em dia, são apenas o prenúncio dessa metamorfose.

 Concluíndo

                               O futuro da Justiça brasileira não cabe mais entre as paredes de um prédio. Ele se projeta em redes, servidores e plataformas digitais. Cabe a nós, operadores do Direito — juízes, advogados, promotores e servidores — assumirmos o protagonismo nesse novo tempo, sem abrir mão da missão que sempre nos guiou: garantir justiça, dignidade e cidadania.

 

sexta-feira, abril 11, 2025

O CONTRATO DO GOOGLE

 

O CONTRATO DO GOOGLE

Era uma vez um sujeito que conseguiu uma boa oportunidade: fora chamado para prestar serviços numa emissora de rádio. Feliz com a chance, procurou o Dr. JASAF para uma assessoria jurídica. Queria um contrato redondinho, coisa profissional. O Doutor, experiente e metódico, analisou a situação, preparou a minuta, precificou o trabalho e apresentou o valor da consultoria.

O cliente olhou o preço, torceu o nariz e disse com aquele ar de quem acha que advogado é só enfeite:

"É só um contratinho, Dr., eu mesmo faço isso aí..."

Virou as costas e foi pro Google.

Baixou um modelo qualquer, desses bem genéricos, trocou o nome da empresa, copiou e colou uns termos que soavam bonitos, e mandou direto para emissora, achando que tinha feito um golaço. A rádio, como é de praxe, repassou o documento ao setor jurídico interno. O jurídico leu, riu, ajustou o texto conforme os interesses da emissora e devolveu. O cliente, afoito, assinou sem sequer reler.

Passou um mês. Nada de pagamento na conta.

Mais cinco dias. O cliente resolve ligar:

"Oi, tudo bem? O pagamento ainda não caiu, aconteceu algum problema?"

A atendente, com voz tranquila, respondeu:

"Não, tá tudo certo, está dentro do combinado."

"Combinado? Que combinado?!" — estranhou ele.

"Está no contrato, você não viu? O jurídico daqui incluiu um período de experiência de dois meses, só depois começa o pagamento. Seu advogado não viu isso?"

Silêncio.

E ali caiu a ficha.


Moral da história:

Quem acha caro pagar por conhecimento, invariavelmente paga mais caro pela ignorância. Contrato não é receita de bolo de internet. E Google não substitui um advogado com experiência.

MAIS UM DIVÓRCIO QUE DR. JASAF IMPEDIU

 

                              João do Caminhão, homem bruto da boleia e de coração mais mole que pudim de leite, chegou bufando ao escritório do Dr. JASAF. Sentou-se, tirou o boné e disse sem rodeios:

 

— “Doutor, vim aqui pra me divorciar. Tô decidido. A minha mulher me enganou!”

Dr. JASAF, já acostumado com dramas conjugais mais acalorados que novela mexicana, cruzou as mãos sobre a mesa e foi direto:

 

— “De acordo com a sua vontade, o senhor quer divorciar-se da sua mulher porque ela o enganou. É isso?”

 

João assentiu com a cabeça, o rosto meio vermelho:

 

— “É sim, senhor doutor. Ela mesma me confessou que amava outro.”

 

Dr. JASAF levantou a sobrancelha, fez uma pausa estratégica e, com aquela lógica afiada que só o sertão é capaz de parir, disse:

 

— “Mas então... se ela confessou, disse-lhe a verdade. Logo, não o enganou.”

João ficou calado. O cérebro dele patinou por um segundo como caminhão sem tração no barro. Coçou a cabeça, pensou e murmurou:

 

— “Uai... é mesmo...”

 

Saiu dali pensativo, com o divórcio adiado e a cabeça cheia de perguntas existenciais. E Dr. JASAF? Risos contidos, mais um casamento salvo pela astúcia jurídica.

terça-feira, abril 08, 2025

O dia em que o Dr. JASAF desfez um divórcio com uma só frase

 Causo de Fórum:


Era uma manhã abafada no Fórum de Brasília de Minas. A audiência era de divórcio litigioso.

De um lado, Maria das Dores, raivosa, braço cruzado e cara fechada.

Do outro, Zé Aparecido, pescador aposentado, calado, bigode tremendo.

O casamento já ia pra vinte e cinco anos. Desses, os últimos dois só de briga, segundo os autos. Motivo: ciúmes, desconfiança, e uma discussão sobre o celular que ele deixou trancado com senha.

Chamaram o Dr. JASAF para defender a mulher. Ela queria casa, pensão, e até que o cachorro ficasse com ela. O marido estava com um defensor nomeado, daqueles novos, engomadinhos.

Antes da audiência começar, a conciliadora tentou apaziguar:

— “Será que não querem conversar, antes da audiência?”

Maria das Dores respondeu:

— “Eu só falo com ele na frente do juiz. E com o advogado do meu lado.”

Zé Aparecido, nervoso, falou:

— “Eu só quero que ela me deixe em paz. Pode ficar com o cachorro.”

Começou o bate-boca. JASAF pediu a palavra, levantou-se com calma, ajeitou o paletó, olhou pros dois e disse:

— “Maria, me diga uma coisa… depois de vinte e cinco anos com esse homem, você quer mesmo começar do zero, aguentar outro roncando, ensinando onde fica o sal na cozinha? E você, Zé, acha mesmo que vai achar outra que te ature pescando, roncando, e jogando truco com os mesmos amigos de sempre?”

Silêncio.

A juíza sorriu. O escrevente até parou de digitar.

Maria das Dores abaixou os olhos. Zé coçou a cabeça.

E o golpe final:

 “Vocês não precisam se separar, precisam é se escutar. Vocês estão brigando com saudade, não com raiva.”

Cinco minutos depois, Maria já tinha tirado a mão do braço. Zé passou a mão nas costas dela. O advogado do réu já tava guardando os papéis.

Saíram do fórum de mãos dadas, e no corredor ela falou:

— “Vamos almoçar lá em casa. Mas me dá a senha do celular.”

E ele:

— “É seu aniversário, mulher. Sempre foi.

Moral do causo:

O Direito resolve processos. Mas às vezes, o advogado bom mesmo resolve é coração ferido.

PROFISSÕES EM EXTINÇÃO NO DIREITO: O QUE A TRADIÇÃO NOS ENSINA SOBRE O FUTURO

 

Autor: Dr. JASAF - Advogado, especialista em Direito Cível, Trabalhista e Criminal

 

 Apresentação

 

Este artigo é uma reflexão profunda, tradicional e analítica sobre o desaparecimento de profissões históricas no âmbito jurídico. Em tempos de automação, digitalização e inteligência artificial, é fundamental entender o que estamos perdendo para não abrir mão da alma do Direito.

 

                                     Introdução: O Direito em Mutacão

 

                              O Direito está mudando. E com ele, silenciosamente, desaparecem ofícios que sustentaram o funcionamento da Justiça por gerações. Neste primeiro capítulo, apresentamos o panorama geral e iniciamos a série.

 

                              O Direito, embora ancorado em fundamentos milenares e estruturado sobre os pilares da tradição, não está imune às transformações que assolam a sociedade contemporânea. O que antes era ofício, hoje se vê reduzido a linha de código. O que era profissão respeitada, hoje se torna função descartável diante do avanço digital e da frieza algorítmica.

 

                              Nos últimos 30 anos, assistimos à gradual e silenciosa extinção de diversas profissões jurídicas – algumas essenciais na construção do sistema de justiça brasileiro. Não falamos aqui apenas da substituição de tarefas, mas da morte simbólica de ofícios que sustentavam a alma processual: escrivães, oficiais de justiça diligentes, contadores judiciais minuciosos, peritos detalhistas, advogados despachantes, copiadores de petições, datilógrafos forenses. Onde estão?

 

                              A modernização, impulsionada por sistemas como o PJe, e-SAJ, e pelos tribunais 100% digitais, levou à redução do contato humano, da análise intuitiva e do juízo de valor construído pela experiência de campo. Em nome da celeridade, perdemos, por vezes, a essência.

 

                              Este artigo é o primeiro de uma série dedicada a resgatar a memória dessas profissões extintas ou em risco dentro do mundo jurídico. Vamos abordar, com olhar crítico e tradicional, as funções que estão desaparecendo dos corredores do fórum, mas que deixaram um legado que merece ser reconhecido, preservado e talvez, reinventado.

 

Porque nem tudo que é antigo deve ser descartado. E nem toda inovação traz justiça.

 

PROFISSÕES QUE ESTÃO SUMINDO DOS FÓRUNS

 

 

O Escrivão: De Senhor do Processo ao Fantasma Digital

 

                              Figura central do processo, o escrivão era o garantidor formal da legalidade dos atos. Com a informatização, perdeu protagonismo e identidade funcional. Tornou-se operador de sistema.

 

                              Durante séculos, a figura do escrivão judicial ocupou posição central e quase soberana na engrenagem processual. Era ele o “senhor do processo”, guardião das peças, mestre dos prazos, e comandante dos ritos cartorários. Nenhuma petição ingressava sem sua chancela; nenhum ato se concretizava sem sua lavratura.

 

                              Era ele quem “dava vida” aos autos, redigia termos, conferia prazos, rubricava atos e, sobretudo, garantia a ordem formal da justiça escrita.

 

                              O prestígio era tanto que muitos juízes temiam o escrivão mais experiente, cuja memória dos autos e dos segredos do cartório superava qualquer sistema. Na prática, era um “guardião do processo”.

 

                              Com o advento do processo eletrônico (PJe, e-SAJ, Projudi), o papel do escrivão foi reduzido a um operador técnico de sistemas, muitas vezes substituído por estagiários ou chefes de cartório. A autoridade simbólica da caneta azul foi substituída por um login e senha.

 

                              A informatização dos atos processuais, se por um lado garante celeridade, por outro elimina o controle humano sensível das fases processuais.

 

                              A morte simbólica do escrivão tradicional representa a perda de um ofício de responsabilidade e honra. Hoje, o processo caminha sozinho, mas frio, despersonalizado.

 

 

O Contador Judicial e os Peritos: O Número Substituído pelo Robô

 

                               Essenciais para liquidações de sentença e interpretação de fatos complexos, estão sendo substituídos por IA e cálculos automatizados. A precisão perdeu para a padronização.

 

                              O contador judicial, figura vital nas execuções e liquidações, era o responsável por traduzir a sentença em valores reais. Cálculos de juros, correção monetária, índices e até mesmo revisões complexas em direito previdenciário ou trabalhista dependiam de sua caneta técnica.

 

                              Com o surgimento de softwares como o Cálculo Jurídico, JusPrev, ProCalc, Excel Jurídico, e até decisões com liquidação automática via IA, esse profissional foi perdendo espaço.

 

                              O mesmo ocorre com muitos peritos judiciais – engenheiros, agrimensores, contadores – que antes percorriam o campo, examinavam, mediam, laçavam a realidade com a mão. Hoje, muitos laudos são produzidos por IA com base em bancos de dados públicos.

 

 

O Advogado Correspondente e o Fim do Despachante Jurídico

 

                              A figura do advogado itinerante e do despachante forense ruiu com o processo virtual. A presença no fórum deu lugar ao envio de PDFs e petições via sistema.

 

                              A interação humana perdeu espaço.

 

                              O advogado correspondente já foi indispensável para sustentar estruturas de escritórios em outras comarcas: audiências, protocolos físicos, carga rápida, entrega de memoriais.

 

                              Após 2020, a virtualização imposta pela pandemia consolidou um novo cenário: audiências virtuais, peticionamento eletrônico universal e acesso remoto a quase todos os atos.

 

                              O despachante jurídico, figura histórica dos corredores do fórum, com sua maleta cheia de papéis e sua arte de convencimento, praticamente desapareceu. Os juízes não mais recebem presencialmente. Os memoriais viraram PDFs sem alma.

 

                              A frieza digital impôs limites à advocacia artesanal. Restam os que dominam a arte da retórica escrita, da persuasão documentada.

 

O Oficial de Justiça: Entre a Botina e o Bit

 

                              O elo entre a Justiça e o mundo real. Com a substituição por citações digitais, essa figura começa a desaparecer, levando com ela a compreensão empírica da lide.

 

                              Poucas figuras evocam tanta tradição quanto o oficial de justiça. De terno puído ou botina firme, com pastinha de papel, enfrentava porteiros, atravessava matas, subia escadarias — era o “braço do juiz”.

 

                              Com a evolução das ferramentas de intimação via WhatsApp, e-mail institucional, DJe, citações eletrônicas por sistema de cooperação (como o JusAPPS), o oficial começa a perder sua razão de ser em áreas urbanas.

 

                              A citação por meio eletrônico é válida, desde que assegurada a autenticidade e a ciência inequívoca da parte.

 

                              Mas a verdade é que sem o oficial, a justiça perde corpo. Ele era o elo entre o mundo jurídico e o mundo real. Era quem ouvia a parte no portão, via a miséria da família, media a tensão de um despejo, registrava o medo num olhar.

 

                              A substituição por mensagens automáticas pode ser prática, mas esvazia o elemento humano da jurisdição.

 

 

A Advocacia Artesanal vs. a Advocacia Automatizada

 

Softwares de petição automática e IA já executam tarefas antes feitas por advogados iniciantes. O que resta é o campo da estratégia, da análise fíníssima e da capacidade humana de persuadir.

 

O Futuro do Direito com Alma Tradicional

 

                              Onde o advogado é insubstituível: audiências, negociação, conselhos, experiência, presença.

 

                              Num mundo cada vez mais dominado por algoritmos e inteligência artificial, o Direito precisa preservar sua alma tradicional.

 

                              O advogado permanece insubstituível quando se trata de audiências, negociações complexas, conselhos prudentes e a vivência forjada pela experiência. Sua presença humana transcende qualquer máquina, pois a justiça não é apenas cálculo — ela exige consciência, sensibilidade e ética.

 

                              O futuro do Direito, para ser justo, deve avançar com a tecnologia sem abandonar a sabedoria milenar que sustenta sua legitimidade. A toga pode até conviver com o digital, mas jamais será substituída por ele.

 

                              A justiça requer mais do que dados. Exige consciência.

 

                              O Direito Mudou, Mas o Advogado Persiste

 

                              O Direito está em mutação, mas a figura do advogado que pensa, que sente e que representa continua viva. A tradição nos ensina a preservar o essencial: o humano.

 

 

Dr. JASAF é advogado desde 2000, especialista em Direito Cível, Trabalhista e Criminal. Atua pela JASAF Consultoria e Assessoria Jurídica em SP, MG e DF. Estudioso da tradição jurídica e defensor da justiça com alma.

 

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