quarta-feira, agosto 13, 2025

VIVER É DIFERENTE DE ESTAR VIVO

 

                                                             Autor: JASAF

JOSE ANTONIO SOARES ALVES FILHO 


Vivo porque a estrada me chama,
porque o vento da chapada e do cerrado sopra meu nome.
Vivo pra ver a lua grande nascer
atrás do morro, mansinha, sem fome,
pra sentir o cheiro do café fresco
e ouvir o galo antes da aurora.

 

Vivo pra sentar na sombra do jatobá,
lá no Riacho do Meio, no banco de madeira,
prosear com o compadre sobre tempos antigos,
falar de caça, de roça, de chuva certeira,
rir das histórias de onça e capoeira,
e deixar o tempo correr sem pressa,
como corre o rio na cheia.

 

Vivo pra comer feijão tropeiro com torresmo,
arroz com pequi e carne de sol bem passada,
beber água fria de pote de barro,
mastigar um pedaço de rapadura
e ouvir viola do primo Magno Bento com ponteio raro,
sabendo que ali meu coração encontra
o compasso certo do seu disparo.

 

Vivo pra rever a molecada correndo descalça
pelas ruas empoeiradas de Brasília de Minas,
o vô na rede, a vó na costura,
o cheiro de bolo de fubá no forno,
a vida simples, mansa e segura,
que o mundo lá de fora não entende
e nem quer aprender essa doçura.

 

Vivo pra chorar no enterro do velho amigo,
pra rir alto na festa de casamento,
pra dançar forró no salão da comunidade,
deixar que a saudade vire alimento
e que cada abraço forte me conte
o valor do tempo e do momento.

 

Porque viver é diferente de estar vivo,
e não é preciso ser rico nem ter dinheiro para viver.
No Riacho do Meio e em Brasília de Minas aprendi essa lição verdadeira:
que não basta o corpo ter fôlego e passo,
é preciso ter alma inteira,
ter raiz, ter canto, ter abraço,
e se encher da paz da terra sertaneira.

Vivo pra ouvir o canto da seriema,
pra ver o entardecer vermelho no horizonte,
pra molhar o rosto na bica fria,
e beber da paz que o sertão me apronte.

 

segunda-feira, agosto 11, 2025

Brasilinha, por que voltar??

 

BRASILINHA, POR QUE VOLTAR?

Autor: Jasaf

         JOSE ANTONIO SOARES ALVES FILHO

Volto porque a saudade bateu e me chamou,
porque o peito pediu caminho.
Volto pra ver o velho pai e a doce mamãe,
pra abraçar a mãe no cantinho,
rezar no altar, renovar meu ninho
e reacender a chama.

Volto no São João da roça, pra dançar,
pra prosear com amigos na calçada,
tomar uma pinga com meu irmão,
tocar viola e cantar uma moda animada,
e assim sentir o pulsar do meu sertão.

Volto pra comer carne de sol e frango caipira,
com cheiro verde, feito na panela de barro;
comer arroz com pequi
e depois, na varanda antiga, escutar causos,
soltar meu cigarro, sabendo
que meu lugar é aqui.

Volto pra rever parentes e amigos,
pra rir dos novos e sorrir dos antigos,
pra caminhar nos pastos batidos,
revisitar a casa dos meus avós
e os cantos queridos.

Volto pra mostrar a cidade a quem quer conhecer,
apresentar ao primo, ao tio, à filha
a cidade que é meu canto de verdade,
do meu peito feito saudade,
mostrar que aqui meu coração quer viver
e minha alma descansar.

Volto pra ouvir as mesmas piadas e a mesma história,
e rir como se fosse a primeira vez,
ou rir como se fosse a última,
guardando tudo na memória de uma vida inteira.

Volto pra curar dor escondida,
pra enterrar o amigo, abraçar a ferida,
pra batizar quem chega à vida
e chorar por quem partiu.

Volto no Natal da esperança,
no carnaval da Bramoc e jacarezin, no batuque da dança,
no silêncio do sétimo dia,
na alegria da nova criança.
Volto pra celebrar meu lugar e meu chão,
pra chorar, rir, viver e cantar refrão,
pra sentir o cheiro da terra molhada
e da poeira do sertão.

Brasilinha, me aguarde na beira.
Dessa vez volto sem bandeira;
volto por mim, volto por nós, pela história.
Volto por saudade pura e verdadeira,
voltar pra celebrar na dor e na glória,
Brasilinha é meu lar, minha vitória.

 

 

Dedicatória

Inspirado pelo eco suave de um amigo poeta, Dr. Antônio Fabricio Gonçalves, que um dia escreveu: “Brasilinha, ir pra que?”, deixei que as palavras corressem soltas pelo peito. E assim, guiado por saudade e lembranças (de quando morava em São Paulo e sonhava com minha cidade) encontrei a resposta nas ruas, nos cheiros e nos abraços que me esperavam.

Nasceu, então, “Brasilinha, por que voltar?”, não como réplica, mas como abraço, como continuação de um diálogo que só o coração sabe manter.