O Futuro da Justiça e o Avanço Tecnológico: Os Fóruns Vazios e a Nova
Era do E-Processo
Autor: JASAF - Advogado, especialista em Direito Cível, Previdenciário, Trabalhista e Criminal
Estou
observando que o cenário atual da Justiça brasileira, especialmente nas
comarcas do interior, revela uma transformação silenciosa, porém profunda, da
estrutura do Poder Judiciário.
A Justiça mudou. E mudou rápido.
A mudança não por acaso, tampouco fruto de negligência: trata-se de uma consequência direta do avanço tecnológico, a chamada “virtualização” que hoje atinge, de forma irreversível, todos os ramos da vida social — inclusive a Justiça.
Do Processo Físico ao Processo Eletrônico: Uma Revolução Silencios
A implantação do processo eletrônico (PJe) foi o marco inicial dessa revolução.
Facilitou o peticionamento remoto, já quase não exista petições físicas, ou seja reduziu significativamente a papelada, acelerou o trâmite dos autos e desonerou os fóruns de sua função burocrática tradicional.
Com o avanço do processo eletrônico, sistemas como PJe, Projudi e e-SAJ dominaram o cenário jurídico. E com eles veio a desmaterialização dos atos jurídicos.
Este
cenário revela um novo tipo de advocacia — mais dinâmica, desmaterializada e
interconectada — e exige também uma nova concepção de estrutura judiciária.
O Horizonte do E-Processo: A Próxima Etapa
Vale a pena dar uma
olhada:
https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2022/08/apresentacao-relatorio-justica-em-numeros-dra-ana-lucia-e-gabriela-soares.pdf
https://www.cnj.jus.br/tecnologia-da-informacao-e-comunicacao/justica-4-0/
A Obsolescência da Estrutura Física
Diante
dessa realidade, penso que a manutenção de estruturas físicas extensas e
onerosas, como fóruns regionais em pequenos municípios, torna-se cada vez mais
questionável.
Veja
que aqui em Brasilia de Minas, estava previsto a construção de um prédio para
abrigar o novo Fórum, mas acho que após essa nova realidade, a construção de
tal prédio se torna desnecessária.
A
manutenção de prédios públicos onerosos e pouco frequentados, especialmente nas
comarcas de menor movimento, se torna cada vez mais difícil de justificar. Até mesmo porque o Estado, pressionado por sua própria limitação
orçamentária e pela necessidade de racionalizar gastos, deverá reconsiderar o
destino desses imóveis públicos.
Não seria
surpreendente, portanto, se em breve o Poder Judiciário iniciasse tratativas
com o Executivo ou mesmo com a iniciativa privada para a devolução, cessão ou
alienação de imóveis subutilizados.
O fórum, enquanto
prédio, tornou-se simbólico, ficará agora, somente na lembrança dos advogadoa
mais antigos, há vista que funcionalmente dispensável.
O
"julgamento" agora está na nuvem.
O Futuro da Advocacia e o Desafio da Presença Humana
Para
a advocacia tradicional, assim como eu formado em 1999 e que acompanhei de
perto toda essa transformação, este é um momento decisivo: adaptar-se ou
desaparecer.
O
profissional do Direito deve tornar-se também um gestor de tecnologia, um
operador de sistemas jurídicos automatizados e um intérprete de dados.
A
humanização da Justiça, nesse contexto, não será mais função do balcão do
fórum, mas da sensibilidade que o advogado imprimirá ao utilizar ferramentas
digitais sem perder de vista a essência do Direito — o ser humano, pois a sensibilidade, a presença e o
tato humano, que sempre foram atributos insubstituíveis do profissional, agora
devem conviver com a linguagem dos sistemas, a lógica dos dados e a frieza dos
algoritmos
O
que está em jogo não é apenas o fechamento de prédios, demissão funcionários ou
extinção de cargos, mas a redefinição do papel do Estado-Juiz.
Se,
por um lado, o Judiciário torna-se mais ágil e acessível virtualmente, por
outro, corre-se o risco de sua despersonalização e da cristalização de uma
justiça “fria”, algorítmica e distante.
. Aqueles
que resistirem a essa evolução correm o risco de se tornarem obsoletos junto
com os velhos arquivos empoeirados dos fóruns. Mas os que se adaptarem — e
mantiverem viva a alma da advocacia — serão os faróis de humanidade nesse mar
digital.
Uma Justiça Itinerante, Inteligente e Descentralizada?
O
que poderá acontecer é que no lugar dos fóruns atuais seja implantado um modelo
híbrido, com núcleos físicos regionais altamente equipados, funcionando como
hubs de atendimento presencial para casos excepcionais, enquanto o restante do
serviço judiciário opera em nuvem, ou seja os novos fóruns passaram a ser uma
pequena sala com número reduzido de funcionários.
As
sustentações orais, júris, perícias complexas. Atos antes impensáveis à
distância, como audiências e conciliações, hoje se realizam com naturalidade em
salas virtuais. Amanhã, podem ocorrer em ambientes de realidade aumentada ou
metaverso.
Vamos
imaginar um sistema em que o processo corre integralmente por blockchain, com
validade inquestionável dos atos, acessado por qualquer das partes em tempo
real, sem risco de extravio, morosidade ou perda de prazo.
A
Justiça poderá se tornar itinerante novamente — mas não mais com o juiz a
cavalo, como na época do Saudoso Dr. Cassiano de Oliveira, — e sim por meio de
drones, satélites e conexões em alta velocidade que levarão a jurisdição até a
comunidade mais remota.
O Judiciário não
será menos humano — mas será diferente. E os fóruns do interior, vazios como
estão hoje em dia, são apenas o prenúncio dessa metamorfose.
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