Autor: Dr. JASAF - Advogado, especialista em
Direito Cível, Trabalhista e Criminal
Este artigo é uma reflexão profunda,
tradicional e analítica sobre o desaparecimento de profissões históricas no
âmbito jurídico. Em tempos de automação, digitalização e inteligência
artificial, é fundamental entender o que estamos perdendo para não abrir mão da
alma do Direito.
O Direito está
mudando. E com ele, silenciosamente, desaparecem ofícios que sustentaram o
funcionamento da Justiça por gerações. Neste primeiro capítulo, apresentamos o
panorama geral e iniciamos a série.
O Direito, embora
ancorado em fundamentos milenares e estruturado sobre os pilares da tradição,
não está imune às transformações que assolam a sociedade contemporânea. O que
antes era ofício, hoje se vê reduzido a linha de código. O que era profissão
respeitada, hoje se torna função descartável diante do avanço digital e da
frieza algorítmica.
Nos últimos 30
anos, assistimos à gradual e silenciosa extinção de diversas profissões
jurídicas – algumas essenciais na construção do sistema de justiça brasileiro.
Não falamos aqui apenas da substituição de tarefas, mas da morte simbólica de
ofícios que sustentavam a alma processual: escrivães, oficiais de justiça
diligentes, contadores judiciais minuciosos, peritos detalhistas, advogados
despachantes, copiadores de petições, datilógrafos forenses. Onde estão?
A modernização,
impulsionada por sistemas como o PJe, e-SAJ, e pelos tribunais 100% digitais,
levou à redução do contato humano, da análise intuitiva e do juízo de valor
construído pela experiência de campo. Em nome da celeridade, perdemos, por
vezes, a essência.
Este artigo é o
primeiro de uma série dedicada a resgatar a memória dessas profissões extintas
ou em risco dentro do mundo jurídico. Vamos abordar, com olhar crítico e
tradicional, as funções que estão desaparecendo dos corredores do fórum, mas
que deixaram um legado que merece ser reconhecido, preservado e talvez,
reinventado.
Porque nem tudo que é antigo deve ser
descartado. E nem toda inovação traz justiça.
PROFISSÕES QUE ESTÃO SUMINDO DOS FÓRUNS
O Escrivão: De Senhor do Processo ao Fantasma Digital
Figura central do
processo, o escrivão era o garantidor formal da legalidade dos atos. Com a
informatização, perdeu protagonismo e identidade funcional. Tornou-se operador
de sistema.
Durante séculos, a
figura do escrivão judicial ocupou posição central e quase soberana na
engrenagem processual. Era ele o “senhor do processo”, guardião das peças,
mestre dos prazos, e comandante dos ritos cartorários. Nenhuma petição
ingressava sem sua chancela; nenhum ato se concretizava sem sua lavratura.
Era ele quem “dava
vida” aos autos, redigia termos, conferia prazos, rubricava atos e, sobretudo,
garantia a ordem formal da justiça escrita.
O prestígio era
tanto que muitos juízes temiam o escrivão mais experiente, cuja memória dos
autos e dos segredos do cartório superava qualquer sistema. Na prática, era um
“guardião do processo”.
Com o advento do
processo eletrônico (PJe, e-SAJ, Projudi), o papel do escrivão foi reduzido a
um operador técnico de sistemas, muitas vezes substituído por estagiários ou
chefes de cartório. A autoridade simbólica da caneta azul foi substituída por
um login e senha.
A informatização
dos atos processuais, se por um lado garante celeridade, por outro elimina o
controle humano sensível das fases processuais.
A morte simbólica
do escrivão tradicional representa a perda de um ofício de responsabilidade e
honra. Hoje, o processo caminha sozinho, mas frio, despersonalizado.
O Contador Judicial e os Peritos: O Número Substituído pelo
Robô
Essenciais para liquidações de sentença e
interpretação de fatos complexos, estão sendo substituídos por IA e cálculos
automatizados. A precisão perdeu para a padronização.
O contador
judicial, figura vital nas execuções e liquidações, era o responsável por
traduzir a sentença em valores reais. Cálculos de juros, correção monetária,
índices e até mesmo revisões complexas em direito previdenciário ou trabalhista
dependiam de sua caneta técnica.
Com o surgimento de
softwares como o Cálculo Jurídico, JusPrev, ProCalc, Excel Jurídico, e até
decisões com liquidação automática via IA, esse profissional foi perdendo
espaço.
O mesmo ocorre com
muitos peritos judiciais – engenheiros, agrimensores, contadores – que antes
percorriam o campo, examinavam, mediam, laçavam a realidade com a mão. Hoje,
muitos laudos são produzidos por IA com base em bancos de dados públicos.
O Advogado
Correspondente e o Fim do Despachante Jurídico
A figura do
advogado itinerante e do despachante forense ruiu com o processo virtual. A
presença no fórum deu lugar ao envio de PDFs e petições via sistema.
A interação humana
perdeu espaço.
O advogado
correspondente já foi indispensável para sustentar estruturas de escritórios em
outras comarcas: audiências, protocolos físicos, carga rápida, entrega de
memoriais.
Após 2020, a
virtualização imposta pela pandemia consolidou um novo cenário: audiências
virtuais, peticionamento eletrônico universal e acesso remoto a quase todos os
atos.
O despachante
jurídico, figura histórica dos corredores do fórum, com sua maleta cheia de
papéis e sua arte de convencimento, praticamente desapareceu. Os juízes não
mais recebem presencialmente. Os memoriais viraram PDFs sem alma.
A frieza digital
impôs limites à advocacia artesanal. Restam os que dominam a arte da retórica
escrita, da persuasão documentada.
O Oficial de Justiça:
Entre a Botina e o Bit
O elo entre a
Justiça e o mundo real. Com a substituição por citações digitais, essa figura
começa a desaparecer, levando com ela a compreensão empírica da lide.
Poucas figuras
evocam tanta tradição quanto o oficial de justiça. De terno puído ou botina
firme, com pastinha de papel, enfrentava porteiros, atravessava matas, subia
escadarias — era o “braço do juiz”.
Com a evolução das
ferramentas de intimação via WhatsApp, e-mail institucional, DJe, citações
eletrônicas por sistema de cooperação (como o JusAPPS), o oficial começa a
perder sua razão de ser em áreas urbanas.
A citação por meio
eletrônico é válida, desde que assegurada a autenticidade e a ciência
inequívoca da parte.
Mas a verdade é que
sem o oficial, a justiça perde corpo. Ele era o elo entre o mundo jurídico e o
mundo real. Era quem ouvia a parte no portão, via a miséria da família, media a
tensão de um despejo, registrava o medo num olhar.
A substituição por
mensagens automáticas pode ser prática, mas esvazia o elemento humano da
jurisdição.
A Advocacia Artesanal
vs. a Advocacia Automatizada
Softwares de petição automática e IA já
executam tarefas antes feitas por advogados iniciantes. O que resta é o campo
da estratégia, da análise fíníssima e da capacidade humana de persuadir.
O Futuro do Direito com Alma Tradicional
Onde o advogado é
insubstituível: audiências, negociação, conselhos, experiência, presença.
Num mundo cada vez
mais dominado por algoritmos e inteligência artificial, o Direito precisa
preservar sua alma tradicional.
O advogado
permanece insubstituível quando se trata de audiências, negociações complexas,
conselhos prudentes e a vivência forjada pela experiência. Sua presença humana
transcende qualquer máquina, pois a justiça não é apenas cálculo — ela exige
consciência, sensibilidade e ética.
O futuro do
Direito, para ser justo, deve avançar com a tecnologia sem abandonar a
sabedoria milenar que sustenta sua legitimidade. A toga pode até conviver com o
digital, mas jamais será substituída por ele.
A justiça requer
mais do que dados. Exige consciência.
O Direito Mudou,
Mas o Advogado Persiste
O Direito está em
mutação, mas a figura do advogado que pensa, que sente e que representa
continua viva. A tradição nos ensina a preservar o essencial: o humano.
Dr. JASAF é advogado desde 2000, especialista
em Direito Cível, Trabalhista e Criminal. Atua pela JASAF Consultoria e
Assessoria Jurídica em SP, MG e DF. Estudioso da tradição jurídica e defensor
da justiça com alma.
Para saber mais e acompanhar acesse: https://jasaf.jusbrasil.com.br, https://jasaf.blogspot.com
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