terça-feira, abril 08, 2025

PROFISSÕES EM EXTINÇÃO NO DIREITO: O QUE A TRADIÇÃO NOS ENSINA SOBRE O FUTURO

 

Autor: Dr. JASAF - Advogado, especialista em Direito Cível, Trabalhista e Criminal

 

 Apresentação

 

Este artigo é uma reflexão profunda, tradicional e analítica sobre o desaparecimento de profissões históricas no âmbito jurídico. Em tempos de automação, digitalização e inteligência artificial, é fundamental entender o que estamos perdendo para não abrir mão da alma do Direito.

 

                                     Introdução: O Direito em Mutacão

 

                              O Direito está mudando. E com ele, silenciosamente, desaparecem ofícios que sustentaram o funcionamento da Justiça por gerações. Neste primeiro capítulo, apresentamos o panorama geral e iniciamos a série.

 

                              O Direito, embora ancorado em fundamentos milenares e estruturado sobre os pilares da tradição, não está imune às transformações que assolam a sociedade contemporânea. O que antes era ofício, hoje se vê reduzido a linha de código. O que era profissão respeitada, hoje se torna função descartável diante do avanço digital e da frieza algorítmica.

 

                              Nos últimos 30 anos, assistimos à gradual e silenciosa extinção de diversas profissões jurídicas – algumas essenciais na construção do sistema de justiça brasileiro. Não falamos aqui apenas da substituição de tarefas, mas da morte simbólica de ofícios que sustentavam a alma processual: escrivães, oficiais de justiça diligentes, contadores judiciais minuciosos, peritos detalhistas, advogados despachantes, copiadores de petições, datilógrafos forenses. Onde estão?

 

                              A modernização, impulsionada por sistemas como o PJe, e-SAJ, e pelos tribunais 100% digitais, levou à redução do contato humano, da análise intuitiva e do juízo de valor construído pela experiência de campo. Em nome da celeridade, perdemos, por vezes, a essência.

 

                              Este artigo é o primeiro de uma série dedicada a resgatar a memória dessas profissões extintas ou em risco dentro do mundo jurídico. Vamos abordar, com olhar crítico e tradicional, as funções que estão desaparecendo dos corredores do fórum, mas que deixaram um legado que merece ser reconhecido, preservado e talvez, reinventado.

 

Porque nem tudo que é antigo deve ser descartado. E nem toda inovação traz justiça.

 

PROFISSÕES QUE ESTÃO SUMINDO DOS FÓRUNS

 

 

O Escrivão: De Senhor do Processo ao Fantasma Digital

 

                              Figura central do processo, o escrivão era o garantidor formal da legalidade dos atos. Com a informatização, perdeu protagonismo e identidade funcional. Tornou-se operador de sistema.

 

                              Durante séculos, a figura do escrivão judicial ocupou posição central e quase soberana na engrenagem processual. Era ele o “senhor do processo”, guardião das peças, mestre dos prazos, e comandante dos ritos cartorários. Nenhuma petição ingressava sem sua chancela; nenhum ato se concretizava sem sua lavratura.

 

                              Era ele quem “dava vida” aos autos, redigia termos, conferia prazos, rubricava atos e, sobretudo, garantia a ordem formal da justiça escrita.

 

                              O prestígio era tanto que muitos juízes temiam o escrivão mais experiente, cuja memória dos autos e dos segredos do cartório superava qualquer sistema. Na prática, era um “guardião do processo”.

 

                              Com o advento do processo eletrônico (PJe, e-SAJ, Projudi), o papel do escrivão foi reduzido a um operador técnico de sistemas, muitas vezes substituído por estagiários ou chefes de cartório. A autoridade simbólica da caneta azul foi substituída por um login e senha.

 

                              A informatização dos atos processuais, se por um lado garante celeridade, por outro elimina o controle humano sensível das fases processuais.

 

                              A morte simbólica do escrivão tradicional representa a perda de um ofício de responsabilidade e honra. Hoje, o processo caminha sozinho, mas frio, despersonalizado.

 

 

O Contador Judicial e os Peritos: O Número Substituído pelo Robô

 

                               Essenciais para liquidações de sentença e interpretação de fatos complexos, estão sendo substituídos por IA e cálculos automatizados. A precisão perdeu para a padronização.

 

                              O contador judicial, figura vital nas execuções e liquidações, era o responsável por traduzir a sentença em valores reais. Cálculos de juros, correção monetária, índices e até mesmo revisões complexas em direito previdenciário ou trabalhista dependiam de sua caneta técnica.

 

                              Com o surgimento de softwares como o Cálculo Jurídico, JusPrev, ProCalc, Excel Jurídico, e até decisões com liquidação automática via IA, esse profissional foi perdendo espaço.

 

                              O mesmo ocorre com muitos peritos judiciais – engenheiros, agrimensores, contadores – que antes percorriam o campo, examinavam, mediam, laçavam a realidade com a mão. Hoje, muitos laudos são produzidos por IA com base em bancos de dados públicos.

 

 

O Advogado Correspondente e o Fim do Despachante Jurídico

 

                              A figura do advogado itinerante e do despachante forense ruiu com o processo virtual. A presença no fórum deu lugar ao envio de PDFs e petições via sistema.

 

                              A interação humana perdeu espaço.

 

                              O advogado correspondente já foi indispensável para sustentar estruturas de escritórios em outras comarcas: audiências, protocolos físicos, carga rápida, entrega de memoriais.

 

                              Após 2020, a virtualização imposta pela pandemia consolidou um novo cenário: audiências virtuais, peticionamento eletrônico universal e acesso remoto a quase todos os atos.

 

                              O despachante jurídico, figura histórica dos corredores do fórum, com sua maleta cheia de papéis e sua arte de convencimento, praticamente desapareceu. Os juízes não mais recebem presencialmente. Os memoriais viraram PDFs sem alma.

 

                              A frieza digital impôs limites à advocacia artesanal. Restam os que dominam a arte da retórica escrita, da persuasão documentada.

 

O Oficial de Justiça: Entre a Botina e o Bit

 

                              O elo entre a Justiça e o mundo real. Com a substituição por citações digitais, essa figura começa a desaparecer, levando com ela a compreensão empírica da lide.

 

                              Poucas figuras evocam tanta tradição quanto o oficial de justiça. De terno puído ou botina firme, com pastinha de papel, enfrentava porteiros, atravessava matas, subia escadarias — era o “braço do juiz”.

 

                              Com a evolução das ferramentas de intimação via WhatsApp, e-mail institucional, DJe, citações eletrônicas por sistema de cooperação (como o JusAPPS), o oficial começa a perder sua razão de ser em áreas urbanas.

 

                              A citação por meio eletrônico é válida, desde que assegurada a autenticidade e a ciência inequívoca da parte.

 

                              Mas a verdade é que sem o oficial, a justiça perde corpo. Ele era o elo entre o mundo jurídico e o mundo real. Era quem ouvia a parte no portão, via a miséria da família, media a tensão de um despejo, registrava o medo num olhar.

 

                              A substituição por mensagens automáticas pode ser prática, mas esvazia o elemento humano da jurisdição.

 

 

A Advocacia Artesanal vs. a Advocacia Automatizada

 

Softwares de petição automática e IA já executam tarefas antes feitas por advogados iniciantes. O que resta é o campo da estratégia, da análise fíníssima e da capacidade humana de persuadir.

 

O Futuro do Direito com Alma Tradicional

 

                              Onde o advogado é insubstituível: audiências, negociação, conselhos, experiência, presença.

 

                              Num mundo cada vez mais dominado por algoritmos e inteligência artificial, o Direito precisa preservar sua alma tradicional.

 

                              O advogado permanece insubstituível quando se trata de audiências, negociações complexas, conselhos prudentes e a vivência forjada pela experiência. Sua presença humana transcende qualquer máquina, pois a justiça não é apenas cálculo — ela exige consciência, sensibilidade e ética.

 

                              O futuro do Direito, para ser justo, deve avançar com a tecnologia sem abandonar a sabedoria milenar que sustenta sua legitimidade. A toga pode até conviver com o digital, mas jamais será substituída por ele.

 

                              A justiça requer mais do que dados. Exige consciência.

 

                              O Direito Mudou, Mas o Advogado Persiste

 

                              O Direito está em mutação, mas a figura do advogado que pensa, que sente e que representa continua viva. A tradição nos ensina a preservar o essencial: o humano.

 

 

Dr. JASAF é advogado desde 2000, especialista em Direito Cível, Trabalhista e Criminal. Atua pela JASAF Consultoria e Assessoria Jurídica em SP, MG e DF. Estudioso da tradição jurídica e defensor da justiça com alma.

 

Para saber mais e acompanhar acesse: https://jasaf.jusbrasil.com.br, https://jasaf.blogspot.com

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